Korda e o guerrilheiro romântico mirando o infinito

por Homero Nunes
por Juliano Mignacca
Fazia frio naquela tarde de sábado em Havana. Algo bem diferente do sol escaldante que costuma pairar sobre Cuba quase todos os dias do ano. Nas ruas, centenas de milhares de pessoas aglomeravam-se para ouvir o discurso inflamado do presidente Fidel Castro naquele 5 de março de 1960. Deslocar-se entre a multidão era tarefa difícil, sobretudo se aproximar do palanque onde estavam os principais líderes da revolução. Um fotógrafo que se acotovelava em busca de um ângulo mais privilegiado consegue, enfim, a posição ideal para disparar o obturador de sua Leica. Ele movimenta a câmera em várias direções para capturar a expressão que melhor traduzisse o sentimento de comoção que então afligia o país. Enquanto fotografava pessoas comuns, ministros e o próprio Fidel, ele avista, um pouco mais afastado, em segundo plano, Ernesto Che Guevara, com sua costumeira boina e vestindo jaqueta de couro. O guerrilheiro avançou alguns passos e, quando parou, lançou um olhar perdido no horizonte. O fotógrafo, quase espontaneamente, teve tempo de clicar duas vezes antes que Che desaparecesse de sua vista. Estava concluída a foto que se tornaria a imagem mais reproduzida no século 20. O fotógrafo em questão era Alberto Díaz Gutiérrez (1928–2001), ou Alberto Korda, como ficou mundilamente conhecido. Na época tinha 31 anos, a mesma idade do revolucionário.
Korda começou sua carreira fotografando a beleza feminina, ótimo atalho para um galanteador nato aumentar suas conquistas amorosas. Com o parco dinheiro que ganhava conseguiu montar seu próprio estúdio. Foi aí que surgiu o nome Alberto Korda, uma homenagem ao cineasta austro-húngaro Alexander Korda. Nessa época trabalhou também com fotos publicitárias e de moda, sendo pioneiro neste ramo em Cuba. Mas a desigualdade e a injustiça social da ilha não demorariam a passar diante de sua lente. Numa visita a um vilarejo no final dos anos de 1950, uma criança pobre com roupas rasgadas brincava com um pedaço de madeira fazendo dele sua boneca. O registro dessa imagem daria um novo rumo ao trabalho do fotógrafo, que resolveu ajustar o foco de sua câmera nos problemas sociais do país. O primeiro passo foi ser voluntário no jornal Revolución, veículo de divulgação das causas revolucionárias. Posteriormente, tornou-se enviado especial do jornal, cobrindo as viagens dos novos líderes. Suas fotos agradaram o gosto de Fidel, que o convidou para acompanhá-lo. Mesmo assim, Korda nunca foi considerado fotógrafo oficial da revolução, e, tampouco, recebia salário.
Numa tentativa de registrar outras imagens de Guevara, Korda viajou para o campo, onde o comandante se encontrava cortando cana com os camponeses. Para sua surpresa, Che pediu que ele pegasse uma foice e cortasse cana por uma semana, pois, somente assim, deixaria ser fotografado. Por essas e outras, não tirou muitas fotos de Che, mas fez aquela que se tornaria um símbolo ainda presente no imaginário das novas gerações. A foto foi realizada durante o funeral das centenas de vítimas do atentado ao navio La Coubre. A embarcação havia chegado da Bélgica trazendo armas e munição no dia anterior. Aproximando-se cada vez mais do bloco socialista, Cuba se aparelhava para qualquer ofensiva dos Estados Unidos, o que veio ocorrer um ano mais tarde com a frustrada invasão da Baía dos Porcos financiada pelos yankees.
A famosa foto de Che não foi selecionada para o jornal do dia seguinte. A imagem que estamparia a edição foi a de Fidel Castro segurando dois explosivos utilizados no ataque ao navio. Sete anos mais tarde, quando Che já estava fora de Cuba, por conta de investidas revolucionárias na África e depois na América do sul, o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli visitou a ilha e foi ao estúdio de Korda em busca de fotos do guerrilheiro, cujo paradeiro era desconhecido e, portanto, muito comentado. Korda deu a foto ao italiano sem cobrar absolutamente nada. Isso ocorreu quatro meses antes de o argentino ser assassinado na Bolívia em outubro de 1967. Em agosto, a foto foi publicada na revista Paris Match, sem créditos, em um artigo intitulado Les Guerrilleros. Por volta da mesma época, foi também utilizada em impressão colorida pelo artista plástico irlandês Jim Fitzpatrick.

Mas seria com Feltrinelli que a imagem percorreria o mundo, pois, além de militante de esquerda, o editor era também um milionário. Se é que ambas as coisas podem coexistir ao mesmo tempo sem serem contraditórias. O fato é que com a morte de Che, Feltrinelli imprimiu milhares de pôsteres que, logo em seguida, ganharam as ruas. Resultado de um faro publicitário e ideológico. Uma combinação perfeita, uma vez que é impossível defender uma causa ideológica sem propaganda. Um ano depois, nas manifestações de maio de 68, o pôster foi erguido nas ruas de Paris e, desde então, se fez presente em todos continentes. 

A imagem Guerreiro Heroico, como foi batizada, virou ícone contra a opressão, a desigualdade social e símbolo de resistência. Mas ganhou uma dimensão tão ampla que poderia representar, em tese, qualquer ideologia, o que é contestável. Pode ser encontrada numa passeata que reivindica, por exemplo, direitos humanos, algo um tanto paradoxal em relação ao regime ao qual ela está associada. 

Por outro lado, está estampada em milhões de itens que se proliferaram na cultura capitalista, exatamente o que Che combatia. Não vou me estender nessa questão para não tornar este texto demasiado enfadonho, mas vale a reflexão. De acordo com certos princípios socialistas, as ideias são livres e devem ser compartilhadas, o que explica o fato de não existir direito autoral em Cuba. Ironicamente, graças a isso, a imagem se proliferou pelo mundo. Mesmo sem receber um peso cubano pela foto, Korda não guardava ressentimento, até mesmo porque ele sempre foi um socialista convicto. A revolução e as mulheres eram suas grandes paixões. Talvez a revolução tenha perecido, mas a imagem do guerrilheiro está eternizada. Agora, a beleza feminina fala por si. 

por Juliano Mignacca

Coluna: Fotografia


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