Vá para Cuba! Memórias inconsoláveis do cinema de Tomás Gutiérrez Alea

por Homero Nunes
por Juliano Mignacca
Assim que fechei o pacote para a próxima viagem de férias, programada para Cuba, debrucei-me sobre diversos temas que me interessam em relação ao país, entre eles, o cinema de Tomás Gutiérrez Alea (1928-1996), autor do clássico Memórias do Subdesenvolvimento, de 1968, um dos melhores filmes já realizados na América Latina. A obra é baseada na novela Memórias Inconsoláveis, de Edmundo Desnoes, que também assina o roteiro. Sua personagem principal é Sérgio, vivido pelo ator Sérgio Corrieri, um intelectual burguês que vê a esposa, familiares e amigos partirem para Miami após o triunfo da revolução. Ele permanece no país e observa as mudanças enquanto vagueia pelas ruas de Havana submerso em monólogos interiores (fluxos de consciência) e nas memórias do passado.
 
Sérgio se mostra crítico em relação ao velho e ao novo regime, embora se mantenha numa posição distanciada, incapaz de agir ou assumir qualquer atitude transformadora. É um personagem deslocado, que não se encaixa na realidade dos que ficaram no país nem tampouco daqueles que se foram. A luneta que ele utiliza na varanda do seu luxuoso apartamento evidencia isso. Ela o mantém a distância, vendo tudo de cima e de longe. Como disse Alea: “a luneta se transformou no símbolo da personagem, como se Havana fosse um objeto de laboratório”. Alea, ou Titón, como também era conhecido, trabalhou em curtas e pequenos projetos cinematográficos nos anos anteriores à revolução, época em que praticamente não se fazia cinema em Cuba.
 
Após a tomada do poder por Fidel Castro, em 1959, uma das primeiras metas culturais foi a criação do ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica). Alea foi um dos pioneiros do Instituto, o que lhe permitiu realizar seus primeiros documentários e longas-metragens sobre a revolução e os problemas do país. Pela primeira vez nascia uma estrutura para o cinema em Cuba, e Alea finalmente poderia dar prosseguimento à sua vocação. Apesar de o Instituto estar sob tutela do Estado, havia interesse de que o cinema cumprisse sua função de espetáculo, mas sem deixar de lado suas ambições estéticas, propondo e sugerindo reflexões. Não era para ser algo panfletário como foi a maioria das artes do “realismo socialista”, no qual imperou o dogmatismo ideológico. Até mesmo porque, em Memórias do Subdesenvolvimento, a personagem Sérgio é uma espécie de anti-herói, um homem que vai se descontruindo, se esfacelando aos poucos. O filme não é idealista, não sugere uma sociedade ideal ou um comportamento a ser seguido. O que se vê são as implicações que decorrem com a chegada da revolução. Há um olhar crítico e autocrítico de quem está lá dentro e assiste in loco ao desenrolar da história.
Tomás Gutiérrez Alea (1928-1996)
O diretor cubano adota soluções interessantes de estética e narrativa. Várias cenas são intercaladas por “câmera subjetiva”, isto é, não vemos o protagonista, e sim, o que ele está vendo. Em lugares públicos ele usa enquadramentos fechados de pessoas olhando diretamente para a câmera, produzindo uma sensação própria de documentários. Para aumentar ainda mais essa sensação são inseridos no filme recortes de jornais, depoimentos e fotos com narração em off que parecem notícias de rádio ou televisão. Esse artifício específico remete ao filme Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, coincidentemente também realizado em 1968. Há uma cena em que Sérgio, se sentindo sozinho e isolado em seu apartamento, escuta a gravação de uma discussão entre ele e a ex-esposa, um belo achado cinematográfico para inserir dois tempos narrativos diferentes.
 
O roteiro do filme foi se configurando durante as filmagens e a montagem. Com efeito, o resultado final difere do que havia sido originalmente planejado: Sérgio, morto após se suicidar, narrando o filme todo em flashback. Alea preferiu deixar o desfecho aberto a conjecturas. A cena derradeira apresenta um belo plano-sequência filmado da varanda do apartamento, que mostra o exército se posicionando em cima dos edifícios e os tanques de guerra adentrando pelas avenidas de Havana. Sérgio, agoniado em sua poltrona, abre e fecha um isqueiro cujo som se assemelha ao tic-tac de um relógio. Aos poucos entram imagens de tanques e soldados, porém o som do tic-tac do isqueiro permanece e invade a cena como se estivesse anunciando os últimos minutos que antecedem a nova realidade do país ou o iminente suicídio do protagonista. Um epílogo formidável. Um filme autoral.

 

 
Alea também fez o magnífico A última Ceia(1976), a bela comédia Morte de um Burocrata (1966) e Morango e Chocolate (1993), talvez sua obra mais conhecida do grande público. Todos eles proporcionam uma verdadeira imersão nos aspectos culturais e políticos daquela ilha que se difere tanto do resto do continente americano. Com os filmes de Alea, sobretudo Memórias do Subdesenvolvimento, foi possível fazer um recorte prévio do país. É como se estivesse escrevendo um diário de viagem antes mesmo de embarcar. As imagens e colagens do filme que retratam aquele momento do passado estão em minha memória aguardando o meu testemunho no futuro.
 
Morango e Chocolate, 1993
 
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Coluna: Cinema
 
 

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