Pina, uma revolução cinematográfica

por Homero Nunes

por Rodrigo Morais

 
É muito comum, nos dias que correm, atribuir-se valor a uma obra de arte exclusivamente por seu caráter inovador, elencando como qualidade inconteste o fato de ela supostamente “romper barreiras formais” ou “estabelecer novos parâmetros de estilo”. Em se tratando de análise estética, semelhante critério deve, sem dúvida, ser levado em conta, porém, jamais de modo absoluto, por um motivo básico: muitas obras, embora grandiosas, simplesmente não atendem a esse requisito, posto terem seus criadores se contentado com os modelos formais que lhe foram legados. E isso não os desmerece. De todo modo, ninguém há de negar, se uma obra artística qualquer, para além de certas qualidades que a dignificam, ainda é capaz de ostentar esse trunfo, digamos, “revolucionário”, distendendo a linguagem específica de sua arte, tanto melhor. Parece-me ser este o caso de Pina, último filme do cineasta alemão Wim Wenders, lançado em 2011 mas ainda inédito (pelo menos nas salas de cinema) em muitas cidades do país.
 
 
Talvez no intuito de quebrar falsas expectativas, logo no prólogo o expectador desavisado é informado de que não se trata de um filme sobre a famosa encenadora e coreógrafa alemã, mas para ela, o que faz uma grande diferença. A principal seria esta: Pina, apesar das aparências, não pode ser qualificado como um documentário, ou, pelo menos, não como um documentário tradicional, que se ocuparia em historiar a vida e a trajetória profissional daquela que é tida como a inventora do teatro-dança e afamada mundialmente como uma das maiores artistas do século XX. O filme de Wim Wenders, ainda bem, não foi produzido com esse intento. Na verdade, trata-se de uma maravilhosa exposição, entremeada por depoimentos de bailarinos que trabalharam com Pina Bausch (1940-2009), de algumas de suas mais famosas montagens e coreografias, tudo filmado em maravilhoso 3D.
 
 Pina Bausch 1940 – 2009
 
E é neste ponto que o filme, para além das muitas qualidades que o dignificam – como as extraordinárias coreografias criadas por Pina Bausch para A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, e muitas outras, todas lindas – ainda se mostraria, aos meus olhos pelo menos, capaz de ostentar o trunfo de revolucionário, sempre no tocante, é claro, à linguagem própria da chamada “sétima arte”. E se assim o foi, não há como negar, o foi graças ao 3D. Senão, vejamos. A tecnologia, como todos sabem, já deixou de ser novidade: desde Avatar (2009), de James Cameron, tem saído filme atrás de filme fazendo dela uso. Todavia, ao contrário desse e de outros filmes “precursores”, todos, a bem da verdade, megabobagens, cujo recurso foi utilizado de modo meramente ornamental, ou seja, destituído de qualquer necessidade que o justificasse, Pina apropriou-se dele de modo muito mais crítico, tornando-o algo simplesmente imprescindível em relação ao projeto que lhe norteou, a saber, permitir ao expectador uma sensação próxima de estar assistindo ao vivo à apresentação dos balés. Em suma, dando-lhe aquilo que, até então, só o teatro poderia lhe dar: uma perspectiva tridimensional tanto do palco quanto do corpo dos atores-dançarinos. O resultado, com efeito, superou todas as expectativas, no seguinte sentido: mais do que nos conceder a impressão de estarmos numa poltrona bem localizada de um teatro qualquer, Pina nos oferece a incrível impressão de que estamos assistindo às performances do próprio palco, posto ser esse o local onde a câmara de Wim Wenders se posicionou para registrá-las (de modo nem estático nem contínuo, diga-se de passagem). A ilusão é a de que basta o levantar de um braço nosso para que ele toque em algum suado integrante da Tanztheater Wuppertal (o nome da companhia fundada por Pina Bausch).
 
 Win Wenders 1945 – 
 

 

Não sou estudioso de cinema. Posso, no máximo, ser considerado um cinéfilo médio, um diletante com conhecimento “apenas” digno da matéria pelo fato de ter procurado, no decorrer de uma vida adulta, assistir aos filmes considerados importantes pela crítica especializada. Só isso. Mesmo assim, por ser estudioso de teatro, sinto-me autorizado a fazer o seguinte comentário: se a simples invenção do cinema pelos irmãos Lumière já foi um duro golpe à chamada “arte do efêmero”, que teve de se reinventar ao perceber o óbvio, isto é, que não dava para competir em realismo com o cinema, o filme de Wenders, ao vir a lume, parece ter desferido um novo golpe, na medida em que logrou “usurpar” uma qualidade tida como exclusiva do teatro, dir-se-ia seu último reduto, que é a teatralidade, no sentido mais amplo do termo. Quem já viu ou vier a ver o filme, com certeza compreenderá melhor o que estou a asseverar aqui. De qualquer forma, para arrematar este post, farei uma afirmação ainda mais ousada, porque relacionada exclusivamente à arte cinematográfica: daqui a alguns anos, acredito ser possível imaginar os futuros exegetas do cinema apontando Pina como um dos filmes que mais contribuíram, em termos formalistas, para sua história, ao lado de Viagem à Lua (1902, de Georges Méliès), O Nascimento de uma Nação (1915, de D. W. Griffith), O Encouraçado Potemkin (1925, de Sergei Eisenstein), Cidadão Kane (1941, de Orson Welles) e alguns pouquíssimos outros. Nada mal para um cineasta como Wim Wenders, um dos mais importantes nomes do Novo Cinema Alemão, ao lado de Rainer Werner Fassbinder e Werner Herzog. Digo isso por um motivo simples: apesar de ter realizado filmes relevantes como O Amigo Americano (1977) e Paris, Texas (1984), há tempos o diretor alemão, talentoso mas muito irregular, não nos brindava com algo tão impactante quanto Pina. Mas isso já é outra história…
 
 
 

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