O divã escancarado de Ingmar Bergman

por Homero Nunes
Por Adrilles Jorge
 
Antes de Bergman, salvo uma ou outra escapadela de uma metafísica pop enrustida de algum diretor espertinho que burlava a indústria, o cinema era visto como entretenimento de massas. O cineasta sueco recriou o cinema expurgando e universalizando seus demônios pessoais, impondo  ineditamente ao cinema, sem meios-termos e em tons explícitos e doses cavalares de poesia e filosofia, temas espinhosos como a humilhação, a solidão, morte, a incomunicabilidade, o rancor, a vergonha, a famigerada falta de sentido da vida e ,vá lá, algum perdão redentor que não redime muita coisa (Lexotans, Prozacs e ansiolíticos são recomendados antes e depois das sessões). O menino que era castigado e reprimido severamente pelo pai, um pastor luterano autoritário, exorcizou seus traumas e sua angústia nas telas, realizando uma espécie de catarse auto-analítica universalizada, transformando o cinema em seu divã particular, subvertendo e se aproveitando do  caráter industrial de um passatempo que, depois dele, ganhou o mérito de se tornar definitivamente uma arte que nada devia às demais. Em Bergman, o rigor poético e  literário dos diálogos das personagens se funde à interpretação impecável do elenco e à dinâmica lúdica de uma imagética que explode em uma plurissignificância infinda. Diz-se do cinema que é uma síntese das demais artes: Bergman transformou esta síntese em algo além de si mesma, explorando os limites da arte e da percepção da aventura humana, projetando sua psique particular ao público que consumia em seu cinema o pior e o melhor da natureza humana, em permanente banquete autofágico coletivo.
 
 Ingmar Bergman 1918 – 2007
 

Filmes que compensam:
O Sétimo Selo, 1956
Morangos Silvestres, 1957
O Olho do Diabo, 1960
Persona, 1966
Paixão de Ana, 1969
Gritos e Sussurros, 1972
Cenas de um casamento, 1973
Fanny e Alexander, 1982

Cenas que compensam: 
1) O Sétimo Selo: diálogo com a morte no confessionário.
 
2) Em “O olho do diabo”, inusitada comédia de Ingmar Bergman, o diabo exila Don Juan do inferno e o reenvia à terra para sofrer as agruras de um amor verdadeiro. A infernal epifania amorosa do outrora ardiloso conquistador é sua redenção e sua queda. O demônio também, ao estilo do Divino, escreveria certo por linhas tortas ou o amor também é coisa do capeta?
 
 
A cena acima é justamente a do retorno de Don Juan ao inferno, em que o diabo o tortura contando do casamento de sua amada e dos detalhes mais íntimos da felicidade dela com outro homem. O inferno não são os outros, mas a realização alheia que se impõe sobre a nossa miserável condição humana. ”Nada é demasiado cruel para aqueles que amam”, diz Satã no final do filme. De uma sabedoria demasiadamente humana, não?
 

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