No Coração das Trevas, o Apocalipse Agora

por Homero Nunes
“O horror, o horror”. O contraste barroco do rosto de Marlon Brando surgindo das sombras, as mãos secando o suor, a mata fechada, o rio que serpenteia continente adentro, o xamã, a loucura.  Apocalypse Now, o clássico de Francis Ford Coppola, ao som de Jim Morrison e das Valquírias de Wagner, foi inspirado no livro O Coração das Trevas (1902) de Joseph Conrad, o escritor aventureiro enfiado nos cafundós do Congo Belga.
No livro, Kurtz é um caçador de marfim perdido na África, adaptado para o cinema como o coronel no profundo Vietnã, ou Camboja. Da terra sem lei para a lei da guerra, a história mistura aventura e loucura no perigo do desconhecido. Com cenários diferentes, atmosfera parecida, o enredo nos leva de barco por trechos alagados da sanidade, um labirinto psicológico cheio de armadilhas e peças pregadas. Cabeças fincadas em lanças, selvagens convertidos ao devaneio, vislumbres do ocaso, lusco-fusco.
Conrad foi mesmo capitão de um barco mercante no Congo Belga ao final do século XIX. Fugindo do suicídio, após tentativa frustrada, embarcou rumo ao fim do mundo, rio acima na África selvagem. Empunhou o leme, tateou os cenários do livro, sofreu na pele os perrengues da vida e as picadas dos mosquitos. Quase morreu, colecionando malárias. Quando voltou, imortalizou-se escrevendo o pequeno livro que um dia arrebataria Coppola.
 
 
 
Na linha de frente do colonialismo europeu, imperialismo, Conrad envergonhou-se, lamentou-se e, por fim, denunciou os crimes dos seus, expôs a face mais horrível do processo civilizador. A desorganização e a ineficácia da máquina imperialista, o desastroso projeto de dominação pela força, a degradação humana escondida em ideologias salvacionistas, civilizatórias. O que se queria era sempre o vil metal às custas do vil homem. Escuridão moral e violência extrema.
 
 
Coppola quase foi ao suicídio entre as monções, tentou pelo menos duas vezes durante as filmagens de 4 anos no fim do mundo. A equipe toda afundada nas Filipinas, muita lama e a crise existencial. Depressivo, obsessivo, angustiado, o diretor repetia tudo à exaustão, enlouquecendo a todos e a si. Por pouco não desistiu, por sorte do cinema. Tinha que aguentar os egos estratosféricos, apagar incêndios na equipe e suportar ele mesmo.  Gastos além do orçamento, dívidas imensas que pioravam tudo. Só faltava a malária. Mas Marlon Brando era mais que o ego, brilhante loucura. O filme saiu melhor que a encomenda, rara exceção que compete com o livro.
Do alto perdido do rio Congo à guerra do Vietnã, o sombrio ser humano, a degeneração, o mal, as trevas do coração, o apocalipse agora. O horror espalhado como o cheiro de Napalm pela manhã.
“Não, não me enterraram, embora tenha havido um período que recordo vagamente, com espanto e horror, como uma passagem por um mundo inconcebível, onde não havia nem esperança nem desejo. Achei-me de volta à cidade sepulcral, ressentindo a visão de pessoas com pressa nas ruas para roubar um pouco de dinheiro umas das outras, devorar sua infame cozinha, engolir sua cerveja insalubre, sonhar seus sonhos insignificantes e tolos. Atropelaram meus pensamentos. Eram intrusos cujo conhecimento da vida era para mim uma pretensão irritante, porque me sentia bastante seguro de que não tinham condições de saber as coisas que eu sabia. Suas maneiras, que eram simplesmente as maneiras de indivíduos comuns lidando com seus negócios na certeza da perfeita segurança, eram ofensivas para mim como a escandalosa empáfia dos tolos diante de um perigo que são incapazes de compreender. Não tinha nenhum desejo especial de iluminá-los, mas tinha alguma dificuldade em abster-me de rir nas suas caras tão cheias de estúpida importância. Acho que não me sentia muito bem nessa época. Perambulava pelas ruas – havia muitos assuntos para acertar – arreganhando amargamente os dentes para pessoas perfeitamente respeitáveis…”
CONRAD, Joseph. O Coração das Trevas. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2004. (p. 135)
Tradução de Albino Poli Jr.
 
 
 
Apocalypse Now
Francis Ford Coppola, 1979
Com Marlon Brando, Robert Duvall, Martin Sheen, Laurence Fishburne e Dennis Hopper
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Em 1994 foi lançada uma adaptação de “O Coração das Trevas“, com Tim Roth no papel do Capitão Marlow e John Malkovich encarnando Kurtz.
Dirigido por Nicolas Roeg.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Colunas: Literatura e Cinema
 
 

Sobre os autores

Acompanhe