Ingmar Bergman e um mergulho no rio escuro do cinema

por Homero Nunes
por Juliano Mignacca

O filme é um sonho, como a música. 
Nenhuma arte passa à nossa consciência da maneira que o filme faz. 
Ele vai diretamente aos nossos sentimentos e toca o fundo de nossas almas.
Ingmar Bergman

Bergman, O Sétimo Selo, 1956
Na cena final do filme Luz de Inverno, de Ingmar Bergman, há um diálogo entre o pastor e o ajudante da igreja no qual este especula que a dor física de Cristo teria sido insignificante se comparada à dor de quando ele gritou: “Deus, meu Deus! Porque me abandonastes?” Prossegue a personagem de Allan Edwall: “Jesus acreditou que tudo aquilo que ele havia pregado fora em vão. No momento antes de morrer, Cristo foi tomado pela dúvida. Certamente este deve ter sido seu maior sofrimento. O silêncio de Deus”. O trecho desse magnífico filme de 1962 ilustra um dos temas mais recorrentes na obra do sueco Ingmar Bergman (1918-2007): o silêncio, a afasia de Deus.
Bergman, Luz de Inverno, 1962
As personagens são impotentes para resolver suas angústias. As convicções religiosas podem amenizá-las. Mas, se a fé é invenção do homem, como dizer que Deus também não é? Se ele existe, por que não se manifesta? Dúvidas. Qual certeza se tem do que vem após a morte? Como todo mundo, Bergman não pode responder a essas perguntas. Ainda assim, é interessante como seus filmes lidam de forma direta sobre essas questões. Sem metáforas. Não há rodeios. Da mesma maneira aborda outras tantas inquietações do homem. As existenciais em Morangos Silvestres (1957). A sensualidade, o desejo como motor da vida em Monika e o Desejo (1952). O filme Persona (1966), uma obra-prima, cuja densidade psicanalítica se soma a uma experimentação estética de grande refinamento. A busca pela identidade espiritual em Sétimo Selo (1956). Cenas de um Casamento (1973), produzido para a TV sueca, que retrata como a idealização da felicidade a dois pode ser repentinamente arruinada. É como um soco no estômago a frieza e a agressividade dos diálogos no processo de separação do casal. Sua obra é aberta às investigações da vida. Por isso tem ressonância em qualquer lugar e qualquer período. É atemporal.  

Bergman, O Sétimo Selo, 1956
É improvável refletir sobre Bergman algo que ainda não tenha sido dito pela crítica ou observado pelos amantes da sétima arte. Há milhares de textos sobre o autor e sua obra. Até mesmo porque são mais de 50 filmes numa carreira de 60 anos. Por incrível que pareça, teve uma vida profissional ainda mais fecunda com o teatro. Produziu três vezes mais para essa outra arte. Foi um artista completo. Diretor e roteirista, tinha enorme capacidade de extrair atuações impressionantes de seus atores. Trabalhava quase sempre com os mesmos, todos excepcionais, diga-se de passagem.
Liv Ullman, Persona, 1966
Descobriu mulheres lindas para papéis marcantes. Como não se apaixonar por elas? Ele próprio não pôde escapar. Relacionou-se com a belíssima Bibi Andersson e com Liv Ullman, com quem  fez 10 filmes e uma filha. Uma das atrizes mais emblemáticas da historia do cinema. Conquistou também a estonteante Harriet Andersson, que trabalhava como ascensorista quando a conheceu. Para que ela atuasse, realizou Monika e o Desejo. O filme causou enorme escândalo em festivais de cinema, sobretudo na América do Sul, primeiro lugar do mundo onde seus filmes teriam ganhado reconhecimento, antes mesmo que na Suécia. Dirigiu a espetacular Ingrid Thulin e Kari Sylwan, que trabalhou em Gritos e Sussurros e Face a Face. Todas elas alternando entre papéis frágeis e densos. Ora protagonistas, ora como coadjuvantes. E como não mencionar os atores, cujas atuações certamente permanecem latentes na memória dos cinéfilos. Erland Josephson, Gunnar Björnstrand, Max Von Sydow
Harriet Andersson, Monika e o Desejo, 1952
Ingrid Thulin e Max Von Sydow, A Hora do Lobo, 1968
Liv Ullman e Kari Sylwan, Gritos e Sussurros, 1972
Em julho o cineasta completou aniversário de vida e morte. Será sempre oportuno reverenciá-lo. Afinal, é um dos maiores artistas da história do cinema. Penetrar na obra de Bergman é como um mergulho num rio à noite, na escuridão das incertezas. A diferença é que no rio, quando necessário, é possível emergir em busca de luz e segurança. Com o cinema de Bergman, dificilmente se sairá ileso.

Juliano Mignacca

Ingmar Bergman (*14/07/1918 +30/07/2007)

Coluna: Cinema



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