Suicidado Vincent: a tragédia de Van Gogh e a orelha

por Homero Nunes
por Homero Nunes
 
Van Gogh, Autorretrato com orelha cortada e cachimbo, 1889
Vincent Van Gogh foi o gênio mais fracassado da história da arte. Sua vida foi cheia de frustrações e dificuldades e só foi reconhecido após a morte. Muito da sua atual fama, aliás, vem da sua tragédia: suicídio e orelha. Apesar de todo o talento, ainda que seja um dos mais importantes pintores de todos os tempos, Van Gogh viveu na miséria, desprezado, angustiado, fracassado, desesperado. Após brigar com Paul Gaugin, também pintor, e ser rejeitado por uma prostituta pela qual se apaixonou, cortou parte da orelha e a enviou com grande dose de amargura. Bebia muito, sobretudo absinto. Fumava. Terminou tudo com um tiro no peito, ferimento que o deixou agonizante por dias antes de falecer. Suicídio e orelha foram os requintes de sua tragédia.
Van Gogh, Autorretrato com orelha enfaixada, 1889
Contraditoriamente, uma biografia recente de Van Gogh sugeriu que ele teria sido na verdade assassinado, refutando a história oficial do suicídio. Com uma pesquisa histórica profunda, estudando várias fontes, os autores, Steven Naifeh e Gregory White Smith, escreveram “Van Gogh, a vida”, em busca de desmitificar a tragédia do artista. Segundo eles, Vincent teria se envolvido em uma confusão com um jovem maldoso que costumava azucrinar pintores deprimidos e fracassados. Após bebedeira e discussão, o tal atirou. Van Gogh ferido preferiu inventar o suicídio para livrar o rapaz. Será?
Van Gogh, Autorretrato com chapéu cinza, 1887
Segundo o museu Van Gogh de Amsterdam, esta é uma biografia importante, de grande credibilidade, baseada em pesquisas sérias e profundas, contudo, a grande ressalva é justamente em relação à morte do pintor. Segundo os especialistas do museu, não dá para afirmar que não houve o suicídio, devido à falta de testemunhas ou relatos concretos. Além disso, o próprio Van Gogh, agonizando, disse a todos que atirou em si mesmo. Juras de leito de morte, nos braços do irmão, único amigo.
Van Gogh, Autorretrato, 1887
As questões levantadas pela nova biografia são relevantes, mas enviesadas. A polêmica vende. Não faltam ideias do tipo para afirmar o contrário. Não houve testemunha, segundo a história oficial. Foi ele que sobreviveu para contar a história da própria morte. Algum mistério sempre vai existir sobre a morte de uma figura tão marcante na história da arte. Não houve autópsia. A história da trajetória da bala não foi descrita pelo Dexter. Muita gente se suicida com tiros no peito (até Getúlio Vargas). Ele tinha motivos de sobra.
Vincent Van Gogh, Retrato de Theo, 1887
A biografia se aproveita ainda de um sentimento moral que tenta absolver Van Gogh da prática do suicídio, como se ele fosse melhor por ter sido assassinado. Não foi melhor, nem pior. Matou-se talvez por não suportar o fracasso, por não suportar ser tão artista e não ser aceito, em todos os sentidos. Nas cartas que escreveu para o irmão, as famosas “Cartas a Theo”, era também pura angústia. Nos relatos do Dr. Gachet era loucura. Para si mesmo era fracasso. Emocional, social, econômico, familiar. Um fracasso. Um artista extraordinário, gênio, único, mas também o mais fracassado. Vendeu um único quadro na vida, para o irmão, marchand. Dependia dele — que tinha mulher e filho para sustentar — e lhe doía ser um fardo. Apaixonou-se pela mulher errada, aquela da orelha. Tentou a amizade de Gauguin, mas não rolou clima, faltou empatia. Cada vez mais solitário, esquisito. Cortou parte da orelha e foi fumar cachimbo. 

Van Gogh, Natureza morta com Absinto, 1887
Enxaquecas, a toxina das tintas, o absinto. Altos teores alcoólicos. Comia mal, vivia num quarto minúsculo, em Auvers-sur-Oise, sem janelas, apenas uma claraboia. Sem vista. Um sujeito que vivia de paisagens, mas que passava muitas horas dentro de um quarto sem janelas, triste. Sem perspectiva de algo melhorar, mas com uma verdadeira obsessão por pintar, grossas camadas de tinta cara, para estourar o orçamento. Algo maior que ele, possessão da arte.
Quarto de Van Gogh em Auvers-sur-Oise
Não tinha nada, mas tinha tudo, tudo mesmo, para desistir, para se desesperar, para o suicídio. Como bibliografia contrária, Antonin Artaud — o escritor, poeta e dramaturgo francês — escreveu em 1947, o clássico “Van Gogh: o suicidado da sociedade”. Nele, o autor também se aproveitou da polêmica ao sustentar que Van Gogh foi vitimado pelo fracasso. Argumentos mil. Possíveis. Enfim, acreditar que Van Gogh não se matou talvez o absolva em nossos juízos, entretanto, muito mais mistério o envolve na dúvida. Pelas cartas que escreveu a Theo, pelo texto de Antonin Artaud, pelas páginas da história oficial, prefiro a versão do suicídio. Também pelo mistério. Vincent é mais Van Gogh pela tragédia de sua história.
 
Van Gogh, Campo de trigo com corvos, 1890
Compensa:
 
 
VAN GOGH, Vincent. Cartas a Theo.
Vincent por ele mesmo, nas cartas que escreveu para o irmão.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ARTAUD, Antonin. Van Gogh: o suicidado da sociedade. 1947.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
NAIFEH, S. e SMITH, G. W.. Van Gogh: a vida. 2011.
 
 
 
 
 
 
Colunas: Arte e Literatura
 
 
 
 

Sobre os autores

Acompanhe