Rodrigo Andrade: o sombrio abstrato e a matéria da arte

por Homero Nunes
por Juliano Mignacca
Ao entrar em contato com as obras do artista Rodrigo Andrade expostas no térreo da Galeria Millan em São Paulo, o visitante vai se deparar com uma natureza sombria e hostil. As cores verde escuro, marrom e preto dão um aspecto denso nas telas, o que deve ter sido o temperamento desse pintor para a exposição.
A certa distância, nota-se que as camadas maciças de tinta criam as formas da natureza. A imagem nas telas não resulta da representação do desenho e cor simplesmente. Há o elemento extra: a materialidade da tinta. 
Quando se aproxima, as pinceladas desvendam uma natureza tocada e revirada. Nos remete algo lúdico como apertar o barro com os dedos, o lodo das pedras para então limpar as mãos no rio e esfregá-las em árvores. Essas massas grossas de tinta criam um realismo a qualquer distância em que se contempla as telas. E o que triunfa nessa experiência, é o olhar do espectador. 
Embora o cinza, azul e branco atenuem a tensão das cores mais fortes, é perturbador o poder da natureza em seu estado de revolta na exposição intitulada Pinturas de onda, mato e ruína.
 
                              
                     
No primeiro andar a série Bicromias continua explorando a poética da natureza, mas não meramente como tema, e sim, numa nova ideia, uma outra criação. Como o próprio nome sugere: Bicromias são telas com duas cores, e nessas também imperam as espessas camadas que produzem a ilusão em terceira dimensão.
Rodrigo Andrade é da geração de artistas dos anos de 1980. Começou ganhar visibilidade quando ele e outros colegas montaram um ateliê em uma vilazinha no bairro Cerqueira César em São Paulo. Essa turma ficou conhecida como o grupo da Casa 7. Ali reuniam pintores com objetivos estéticos parecidos, influenciados pelo neoexpressionismo Alemão e o expressionismo abstrato dos Estados Unidos:  Carlito Carvalhosa (1961), Fábio Miguez (1962), Paulo Monteiro (1961), Rodrigo Andrade (1962) e Nuno Ramos (1960).
O tempo fez questão de provar que todos tinham talento. Ganharam prêmios, fizeram várias exposições, participaram de bienais e naturalmente receberam os louros desse reconhecimento.
 
Rodrigo Andrade percorreu por experiências figurativas, do abstrato ao gestual, até atingir uma de suas principais marcas no final dos anos de 1990 quando telas pintadas em branco ganhavam massas coloridas em formas circulares e retangulares de uma relação cromática entre si bastante curiosa.
Na 29ª Bienal de São Paulo em 2010, Rodrigo expôs Matéria Noturna, que flerta com a antítese dos contrastes de escuridão e a luz artificial de lâmpadas, postes e faróis. Naturalmente com grandes camadas de tinta preta que deu nome à série. 
Em 2013 as telas que fizeram o conjunto da exposição Pinturas de Estrada, no Centro Universitário Maria Antonia, receberam luz natural diurnas. São imagens pintadas através dos enquadramentos fotográficos que ele realizou durante viagens.

 

A individual na galeria Millan comprova que a investigação plástica de Rodrigo Andrade é incessante, mesmo após mais de três décadas. Isso certamente diferencia o artista do pintor.
 
por Juliano Mignacca
 
Coluna: Arte
 
 

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