“Merda d’artista”, Piero Manzoni, 1961

por Homero Nunes
Para muitos a arte moderna é uma merda. Para Piero Manzoni, literalmente. Na leva da arte conceitual que se iniciou com o urinol de Duchamp, Manzoni lançou em 1961 as latinhas de merda que criticavam em si mesmas a tal arte conceitual e, de quebra, toda a sociedade de consumo. Incrível é que com o discurso, a legenda, o conteúdo (conteúdo intelectual, diz a ressalva), criou-se fôlego para este tipo de coisa e as 90 latinhas de merda produzidas pelo artista venderam-se a preços exorbitantes. Descobriu-se um novo sentido: não é o talento ou a técnica que faz a arte, mas o conceito, o significado atribuído, a semiótica, a surpresa, o inusitado. A idéia vale mais que a obra. Os críticos escolhem o que presta. A legenda define o gosto do público. A arte se transforma em conceito.

 


O artista teria enlatado industrialmente o próprio cocô e colocado rótulos em italiano, francês, inglês e alemão. Os rótulos continham informações como peso, conservação e a data de fabricação do produto, além da numeração (de 1 a 90) que garantia a autenticidade de cada uma. Reza a lenda que algumas latas estufaram devido aos gases e outras chegaram a vazar devido ao processo de corrosão. Contudo, em 1989, 28 anos após as latinhas serem expostas e vendidas, um comprador resolveu abrir uma delas para conferir se tinha bosta mesmo, mas descobriu que era apenas gesso, algodão e algum material não orgânico. Também em 2007 a experiência foi repetida: nada de bosta. Manzoni, morto em 1963, não chegou a ver o sucesso de sua obra e nunca confirmou ou negou o conteúdo das latas, hermeticamente fechadas. Hoje, as latinhas que restaram chegam a ser negociadas em galerias de arte por até 200 mil pica-paus cada! Como dizem no teatro: Merda!
 

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