Independência ou Morte! A história e o ofício de uma arte no Brasil

por Homero Nunes
por Homero Nunes
 
 
A independência brasileira foi ilustrada nos livros de história pela pintura do momento simbólico, quando Dom Pedro heroicamente ergueu a espada, rompeu laços com Portugal e bradou, retumbantemente, “Independência ou Morte” às margens plácidas do Ipiranga. A história oficial tratou como épico o feito maior dos Bragança no Brasil. Num só grito em paisagem tropical, era a independência da colônia centenária que ainda se manteria presa à linhagem da corte portuguesa por mais dois terços de século, ironicamente. Em 7 de setembro de 1822, naquele riachinho Ipiranga, arrabaldes de São Paulo, brotou o mito da construção do Império. Um trecho d’água qualquer, lugar bom para dar de beber aos cavalos, mulas e afins oriundos de Portugal. “Laços fora soldados!”, foi o que se escutou além dos relinchos, “Viva o Brasil separado!”, discurso oficial e a divisa de efeito: “Independência ou Morte”. Heroico brado retumbante. Nas décadas seguintes, o relato de um tal Padre Belchior, devidamente exagerado, floreado, lixado e escovado, foi difundido para fundar o país. Bustos de Dom Pedro I em bronze na fundição, no mármore, nas telas. Era preciso escrever a história grande, muito maior que os escândalos sexuais do imperador e o fato de que menos de uma década depois ele abandonaria o Brasil para lutar sua guerrinha familiar na Europa. Deixou aqui o Pedrinho, aos 14, condenado à Monarquia.
Dom Pedro II, 1888
Já de barbas brancas, erodido pelo tempo e pelo país, Pedro II seria deposto em 1889 pelos republicanos, sem guilhotina nem nada, 100 anos após a Revolução Francesa. Não que o velho Pedro merecesse perder a cabeça, afinal ele perdeu tudo menos o exílio em Paris (Ah Paris!), mas também em tempo a história oficial trataria os militares com heroicos brados pela deposição da tradição decadente em nome da moderna República Brasileira. Antes de ir, o último imperador dos nambiquaras deu um presente imortal à filhinha preferida e encomendou a redenção ao pai, na forma de uma extraordinária pintura do momento da Independência.
Princesa Isabel, 1910
Para a filha mais velha, pseudo-sucessora – uma vez que sabia que ela não poderia herdar o trono, escutando perto a percussão dos militares republicanos – Pedro II deu a assinatura do mais importante documento oficial da história brasileira: a Lei Áurea, em 1888. A princesa libertou os escravos e ganhou a eternidade, no nome que todos sabemos de cor, Isabel. Ela teve três irmãos, mas nenhum de nós que seja pobre mortal saberia de cor os seus nomes*. O dela sobreviverá séculos, Oh Isabel! Nas entrelinhas da história, o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravatura, pois ainda que o papai fosse um homem ilustrado, de ciência e filosofia, a elite branca (que continua por aqui) achava “um horror” abrir mão da mão de obra negra. O movimento abolicionista e a pressão dos países civilizados eram insuportáveis. O Imperador deu à filha o privilégio da imortalidade antes que fosse tarde demais. No ano seguinte, pai e filha partiram para o exílio. Nunca mais pisaram aqui. Isabel, princesa Isabel de Bragança e Bourbon e mais 7 nomes no meio.
 
Dom Pedro I
O presente para o falecido Pedro I, a redenção do pai pela história, foi encomendado pelo Segundo também no arrebol da Monarquia: a pintura “Independência ou Morte”, também conhecida como “Grito do Ipiranga”, finalizada em 1888 pelo consagrado artista Pedro Américo. Sofrendo a doença do Império, a degradação da moribunda Família Real Brasileira, restava salvar a memória do pai desnaturado. Aquele mesmo que o abandonou para nunca mais, retrato na parede, folhetim e novela. Para tal, foi escolhido o mais considerado artista brasileiro da época, um homem de muitas artes, o paraibano europeizado, lustrado lá fora, Pedro Américo de Figueiredo e Melo. Na ocasião, o pintor estava sorvendo Chiantis na Itália, transferindo paisagens da Toscana através dos pincéis. Não teve como recusar a encomenda. Recebeu a correspondência com os relatos oficiais, inspirou-se no Padre Belchior e produziu a épica cena de Pedro I e a comitiva no ato de libertar o Brasil: “independência ou Morte!” Uma tela dramática, cheia de movimentos, circulares enérgicos, o momento de construção da história. A arte faz a vida. Pedro I está lá, no meio, em destaque, conduzindo a espada ao céu e à imortalidade. Todos os livros de história do Brasil que se prezem trazem a imagem atrelada ao texto. O velho barbatanas tentava, antes de cair, de decair, salvar a imagem da família, como se num pedido de desculpas ao pai.
Independência ou Morte, Pedro Américo, 1888
Claro que muitos de nós, pobres historiadores, fazem questão de marcar todas as contradições do quadro, desde o caipira e a tropa do canto da imagem aos tropeços fundamentais da história oficial. Quebramos à talhadeira e pó de arquivo tudo que achamos mal contado por aí. Ossos e ossadas do ofício. Mas nada – nem você leitor, nem nós – vai conseguir apagar a imagem da memória coletiva. Nem mesmo a acusação de plágio de uma tela de Napoleão pintada 13 anos antes (1875). Ainda que a simples análise e comparação das pinturas possa deixar claro que coincidências demais são obras de milagres, há quem sempre dê suporte à honestidade e retidão do imenso pintor brasileiro. Afinal, ele se defendeu em vida das acusações e apresentou vários argumentos, inclusive o de ter estudado técnicas comuns de pintura na mesma academia de Beaux Arts de Paris. Segundo ele, só foi conhecer a tela acusadora anos depois da pintura do Ipiranga e, que mesmo assim, ela o faria lembrar de muitos outros quadros que adornam paredes nos museus da Europa. As influências mútuas os levaram pelo mesmo rio, ou melhor, pelo mesmo barranco. Missão pessoal, por favor, tire as próprias conclusões: “1807, Friedland”, de Ernest Messonier.
1807 Friedland, Ernest Messonier, 1875
Qualquer coisa que o contexto deixe escapar, a tela do Pedro Américo fundou o Brasil. Talvez, para ser justo e oficial, o fez ao lado de mais meia dúzia de pinturas, entre “A Primeira Missa”, de Victor Meirelles, e o “Abaporu”, de Tarsila do Amaral. Uma cena idealizada e encomendada, construída a partir de um mito que reformou e levou adiante, desenhada como o Brasil pelas ideias misturadas do quintal e do mundo. A pintura é retomada e mostrada a cada ano no 7 de setembro, é a imagem máxima da independência do Brasil e exemplo de como a história é escrita pelo poder. Para nós e para a história, independência ou morte!
 
por Homero Nunes


A Primeira Missa, Victor Meirelles, 1860
Abaporu, Tarsila do Amaral, 1928

*os nomes dos irmãos da princesa Isabel, os outros três filhos de Dom Pedro II eram: Afonso, Leopoldina e Pedro. Os dois meninos morreram na infância, levados por uma maldição dos Bragança, e deixaram a sucessão para Isabel. 

Coluna: Arte

 

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