Damien Hirst e a arte de fazer milhões com a arte

por Homero Nunes
por Juliano Mignacca
Odiado e adorado pela crítica. Com esse antagonismo, o inglês Damien Hirst se tornou celebridade e o artista visual mais rico do mundo.
Pela primeira vez no Brasil, Hirst apresenta uma mostra individual na galeria White Cube em São Paulo.
 
 
A exposição conta com trabalhos inéditos intitulados Black Scalpel Cityscapes (Negras Paisagens Urbanas com Bisturis). São reproduções aéreas de cidades ao redor do mundo feitas com laminas de barbear, alfinetes, zíper, instrumentos cirúrgicos entre outros. As paredes da galeria apresentam 17 telas de fundo preto revestidas desse material prateado. Por abordar somente essa combinação, é repetitivo, mas proporciona uma estranheza no ambiente.
 
 
Nesse trabalho, Hirst evoca conflitos permanentes da realidade contemporânea; a globalização, vigilância das cidades, crescimento urbano e preocupação militar com a segurança. Porém as obras permitem outras leituras. As formas e volumes de cada uma das telas lembram tendências e períodos da história da arte moderna. Abstração na poluição visual de Singapura, a geometria calculada de Washington, a sinuosidade de São Francisco, a deformidade angular no caos de São Paulo.
 
Singapura
Washington
São Francisco
São Paulo
Damien Hirst faz parte de uma geração de artistas que ganhou notoriedade no final dos anos de 1980. A maioria delesSarah LucasIan DavenportMichael LandyGary Hume, entre outros, cursou na Goldsmiths College em Londres onde tiveram contato com diferentes mídias uma vez que a escola havia abolido a divisão dos departamentos artísticos (escultura, pintura, cerâmica, impressão, etc). Isso contribuiu para encorajá-los a criar várias experiências com arte.
Esses artistas britânicos cresceram durante os anos de recessão de Margaret Thatcher e surgiram para o cenário nacional durante o governo de John Major. Foram tempos difíceis marcados por uma queda enorme na economia e no desemprego. Muitas galerias fecharam as portas e obras ficavam empilhadas. O momento era de investir em artistas jovens com preços mais acessíveis. A arte que surgiria desse contexto expressava a realidade presente nos meios de comunicação em massa. Eram temas que variavam entre sexo, drogas, abuso, pornografia e crime, cuja linguagem, alcançava o entendimento da maioria.

A turma da Goldsmiths, da esquerda para direita: Ian Davenport, Damien Hirst, Angela Bulloch, Fiona Rae, Stephen Park, Anya Gallaccio, Sarah Lucas e Gary Hume, na inauguração da exposição Freeze, 1988.


Em 1988, os alunos da Goldesmith, começaram a expor em grandes galpões industriais. A primeira mostra se chamou Freeze, que certamente emplacou o mito da sigla YBA, Young British Artists (jovens artistas Britânicos)

 
Sem dúvida dois fatos ajudaram a pavimentar o sucesso desse grupo. O primeiro foi o interesse que essa arte despertou no publicitário Charles Saatchi, figura rica e famosa que atuava no cenário das artes colecionando obras de artistas renomados. Após visitar a Freeze, começou a investir nessa geração conseguindo preços espetaculares ao comprar tudo de uma vez só. As novas aquisições de Saatchi ganharam exposições em sua galeria. Foi numa dessas, em 1992, que Hirst apresentou um tubarão tigre dentro de um tanque cheio de formal com o titulo: The physical impossibility of death in the mind of someone living (A Impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo).


Houve grande repercussão na mídia por se tratar de obras que iam contra o “Establishment do mundo das artes. O interesse aumentou tanto que em 1997, a coleção de Saatchi levou mais de 300 mil pessoas ao Royal Academy para ver a mostra chamada Sensation, que teve contribuição do consulado britânico para ser exibida em outros países.
 
O espectador encontrava sangue, cadáver, inseto, animal ou qualquer coisa que era o objeto em si, e não mera representação. Isso ganhava apelo muito maior do que a televisão, uma vez que as pessoas não esperam entrar numa galeria e serem entretidas com esse tipo de imagem.


Outro impulso veio da reformulação do Turner Prize, que é promovido pela Tate Gallery. É uma premiação anual para artistas britânicos por alguma exposição em particular ou contribuição no cenário da arte. Foi desenvolvido para ser eficiente na publicidade. O evento acontece ao vivo da Tate, transmitido e patrocinado pela emissora de televisão Channel Four (Canal Quatro). Em 1995, Hirst foi contemplado com os louros.
 
Expor corpos de animais em caixas de vidro é uma das marcas de Hirst. As esculturas retangulares de material industrial são consideradas por alguns críticos como minimalistas. Mas, como geralmente sugere uma interpretação, mesmo que oculta, perde a ideia central do minimalismo que busca erradicar qualquer mensagem.


Hisrt diz que muito da arte contemporânea depende do impacto que ela provoca. Segundo ele, o importante é tirar do espectador um “Uau”! Muitas pessoas são impelidas a essa reação quando se deparam com suas obras. É o caso de Mother and child, divided (1993), (Mãe e filho, divididos), ou simplesmente separados. Um trabalho intrigante que remete a conceitos cristãos. Vida e morte é assunto recorrente na obra de Hirst.
 
A instalação, A Thousand Years (1990), com insetos dentro de duas caixas de vidro e uma cabeça de vaca em decomposição também discorre sobre isso. Os insetos põem seus ovos que viram larvas para se tornarem insetos e então morrerem completando o ciclo da vida.


Alguns críticos veem suas obras como apelativas e oportunistas. Censuram o fato dele fazer trabalhos em série que muitas vezes são realizados pelos seus assistentes; tais como spot painting, que alcançou mais de trezentas unidades.
 
Talvez o repertório polêmico de Hirst vem se esgotando para atrair a mídia, ainda que espontânea ou planejada. Mas a cobiça do mercado para seus trabalhos mais recentes não parece se incomodar. Na abertura da exposição em São Paulo por exemplo, seis das 17 telas foram vendidas por 3,6 milhões de reais cada uma.


De qualquer maneira, mesmo criando réplicas e tendo suas obras executadas pelas mãos de seus assistentes, o que faz a arte de Damien Hirst interessante, é antes de tudo, a ideia.

por Juliano Mignacca

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