Cézanne explica: o abstrato como resultado e rompimento, (de)composição da história da arte

por Juliano Mignacca

Uma tela abstrata pode ser como uma música sem letra. Ambas não precisam dizer nada, bastam atingir o sensível de cada um.

Wassily Kandinsky, Composição n°VIII, 1923, Guggenheim, Nova York

Wassily Kandinsky, Composição n°VIII, 1923, Guggenheim, Nova York

Em se tratando das artes plásticas, existe a especulação de que a obra deva revelar algo objetivo. Geralmente o observador busca indícios na composição que possam elucidar uma narrativa ou a intenção do artista. Essa tentativa é por vezes frustrante. Alguém pode acreditar que uma simples explicação daria sentido ao todo, mas nem sempre a obra tem essa intenção. Em muitos casos não possui título, sequer assinatura do artista.

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Joan Miró, Azul II, 1961, Centre Pompidou, Paris

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Johannes Vermeer, A Vista de Delft, 1960-1, Mauritshuis, Hague, Holanda

Caravaggio, A Incredulidade de Tomé, 1601-02, Sanssouci, Potsdam, Alemanha

Caravaggio, A Incredulidade de Tomé, 1601-02, Sanssouci, Potsdam, Alemanha

Em meados do século 19, um grupo na França embalado pelas mudanças tecnológicas, filosóficas e da urbanização de Paris, pensava algo diferente. Édouard Manet começou a romper com a graduação das cores para qualquer efeito tridimensional na tela. Em O Bebedor de Absinto (1858 – 59), pode-se observar um homem retratado sentado em uma mureta de costas para a parede, no qual todo conjunto, permanece com ausência de profundidade, destacando o aspecto bidimensional da pintura.

Édouard Manet, O Bebedor de Absinto, 1858-9, NY Carlsberg Glyptotek

Édouard Manet, O Bebedor de Absinto, 1858-9, NY Carlsberg Glyptotek

As inovações de Manet ganharam atenção de uma geração de pintores que ficaram conhecidos como impressionistas. Esses priorizavam pinceladas curtas e buscavam os efeitos da luz. Isso foi possível graças à invenção dos tubos de tinta que permitiu a esses artistas que deixassem seus ateliês para pintar ao ar livre. Pela primeira vez, a tinta ficava evidente na tela e a estrutura pictórica começa a perder a necessidade de ser tridimensional.

Porém, esses pintores, que geralmente escolhiam um tema da vida burguesa de Paris do século 19, não estavam muito interessados em problematizar a estrutura das formas. A interferência deles se dava no tratamento das cores sobre os objetos. As pinceladas precisavam ser rápidas e certeiras para acompanhar as mudanças da luz solar. Mas devido a esse dinamismo da palheta na execução, as formas ficavam com ausência de contorno.

Claude Monet, Passeio sobre a Falésia, 1882, Art Institute of Chicago, EUA

Claude Monet, Passeio sobre a Falésia, 1882, Art Institute of Chicago, EUA

A inquietação de alguns artistas que passaram por essa tendência impressionista foi ainda mais longe, e involuntariamente, plantaram os alicerces da arte moderna. Vincent Van Gogh pintou suas emoções com efeitos dramáticos. Paul Gauguin usou cores que não combinavam com as da realidade. Pôs fim na composição naturalista da cor. O francês Paul Cézanne mudou a lógica da construção do espaço utilizada até então.

 

Vincent Van Gogh, Terraço do Café à Noite, 1888, Kröller-Müller Museum, Otterlo, Holanda

Vincent Van Gogh, Terraço do Café à Noite, 1888, Kröller-Müller Museum, Otterlo, Holanda

Cézanne foi um artista que admirava as obras clássicas e participou brevemente do grupo impressionista, mas acreditava que ambos cometiam erros. O resultado final não o convencia. Ao contrário, tinha uma ansiedade inesgotável em busca de uma representação fiel à sua crença.

Ele acreditava que o processo dos antigos era artificial e abstrato por não representar a natureza tal como ela é. Para transmitir a idéia do visível e harmonia, os artistas clássicos se orientavam pelos métodos inventados da perspectiva geométrica, dos efeitos da luz para volume e atração das cores.  Prevalecia mais o método do que a verdade das formas da natureza, até mesmo porque, naquela época, as telas eram realizadas nos ateliês.

Cézanne questionava esse aspecto formal da estrutura e queria algo diferente. Ele também se distanciou dos impressionistas por não estar interessado somente no tratamento cromático das formas.

 

Paul Cézanne, As Banhistas, 1898-1905, Philadelphia Museum of Art, EUA

Paul Cézanne, As Banhistas, 1898-1905, Philadelphia Museum of Art, EUA

O artista Émile Bernard, amigo e admirador de Cézanne chegou a dizer que o pintor queria introduzir Classicismo na pintura impressionista. Mas, na verdade, ele não estava interessado em seguir à risca nenhuma das duas tendências, embora tirasse proveito de ambas.

Para Cézanne, os impressionistas deixavam as formas com ausência de contorno. A seu ver, faltava a esses artistas realismo em suas pinturas. E os antigos, ao limitar a linha do contorno das formas, deixavam a figura sem movimento.

Paul Cézanne, Os Jogadores de Cartas, 1890-95, Musée D'Orsay, Paris

Paul Cézanne, Os Jogadores de Cartas, 1890-95, Musée D’Orsay, Paris

Cezánne usava blocos de cor para atingir forma e profundidade. Fazia com que a cor unificasse objeto por objeto criando uma unidade. Não havia separação entre a figura e o fundo, a passagem era realizada com a combinação de cores. Suas investigações não terminariam aí. A representação dos elementos em uma tela era realizada até então através de uma única perspectiva do olhar. Cézanne começou a pintar imagens com dois ângulos diferentes, duas perspectivas, assim como nós faríamos ao analisar as várias partes de um objeto. Ele abandonou a perspectiva geométrica tradicional. Em suas figuras, surgem formas de esferas, cones e cilindros. Tais inovações levaram ao Cubismo, que priorizava o máximo de informação de todos os ângulos do mesmo tema. “Cézanne é o pai de todos nós”, teria afirmado Pablo Picasso.

Pablo Picasso, Les Demoiselles D'Avignon, 1907, MoMa, Nova York

Pablo Picasso, Les Demoiselles D’Avignon, 1907, MoMa, Nova York

Alguns anos mais tarde, toda essa abordagem analítica iniciada por Cézanne culminaria em abstração total.

Talvez por isso a pintura abstrata não tenha que dizer algo por si mesma. Quem nos diz, é a própria história da arte.

 

por Juliano Mignacca

 

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