A Roma Antiga em Mármore e Tinta a Óleo

por Homero Nunes
por Rodrigo Morais
rapto de uma Sabina, de Giambologna1581/82, mármore, alt. 410 cm. Florença, Loggia dei Lanzi.
A Roma Antiga já serviu de pretexto à criação de inúmeras obras de arte, nos mais diversos seguimentos. Na literatura, por exemplo, se poderia citar o poema A Violação de Lucrécia(1594), de William Shakespeare, ou os romances Quo Vadis (1895) e Memórias de Adriano (1951), de Henryk Sienkiewicz e Marguerite Yourcenar, respectivamente. No teatro, impossível não lembrar de algumas peças do próprio Shakespeare, como Júlio César (1599) e Coriolano (1608), além, é claro, de Britânico (1669) e Berenice (1670), de Jean Racine, e Calígula (1944), de Albert Camus. Em relação ao cinema, os exemplos são tão profusos que é melhor nem transcrevê-los aqui, na certeza de que o leitor conhece ao menos uns cinco filmes cuja ação se passa no período histórico em questão. Na televisão, destaque-se a extraordinária série Roma, produzida pela HBO em 2005 e 2006. Contudo, em que pese sua onipresença nas mais variadas manifestações artísticas, é no campo das artes plásticas, provavelmente, que a história romana se acha mais bem representada, há anos ensejando grandes obras em mármore ou tinta a óleo. Dos eventos que marcaram a trajetória latina na antiguidade clássica, muitos dos quais envoltos em lendas, um dos que mais tem despertado a atenção de escultores e pintores é, sem dúvida, o episódio conhecido como o “rapto das sabinas”, supostamente acontecido nos primórdios de Roma.
 
O Rapto das Sabinas, de Nicolas Poussin, 1634-35, óleo sobre tela, 154,6 x 209,9 cm. Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.
O Rapto das Sabinas, de Nicolas Poussin, 1637-38, óleo sobre tela, 159 x 206 cm. Musée du Louvre, Paris.
Embora a credibilidade desses fatos ligados à fundação da cidade seja muito pequena – quase todos descritos por historiadores como Tito Lívio e Plutarco – a partir do Renascimento, momento de grande valorização do passado greco-romano, retratá-los em telas e esculturas se tornou quase uma obrigação. Segundo consta, para resolver o problema da escassez de mulheres no povoado que fundara, circunstância claramente impeditiva à sua expansão, Rômulo, suposto primeiro rei de Roma, propôs uma solução diplomática: negociar com os sabinos, povo vizinho, a permissão para que as mulheres de lá pudessem se casar com romanos. Não deu certo, visto que os sabinos se recusaram a cedê-las, temendo o surgimento de uma sociedade rival. Na impossibilidade de adquirir as mulheres que desejava por vias pacíficas, Rômulo apelou para uma solução drástica, ou seja, o rapto das sabinas. Para tal, valeu-se de um artifício engenhoso: promover um festival em homenagem a Netuno Equestre e proclamá-lo aos vizinhos de Roma. Convidados a comparecer, os sabinos foram pegos de surpresa quando, após um determinado sinal de Rômulo, os jovens romanos atacaram e sequestraram as mulheres sabinas presentes à cidade, especialmente as donzelas. Em mãos inimigas, essas mulheres teriam sido (nessas ocasiões, melhor utilizar o futuro do pretérito) convencidas-coagidas a se casarem.
 
O Rapto das Sabinas, de Peter-Paul Rubens, 1635-1640, óleo sobre tela, 170 x 236 cm. National Gallery, Londres.  
A violenta atitude dos romanos deflagrou um conflito armado com os sabinos. Estes, comandados por Tito Tácio, em um determinado momento da guerra sitiaram o Capitólio, então um posto avançado de Roma. Os romanos, posicionados no  Palatino, depois de algumas batalhas se reconciliaram com os vizinhos graças à ação das próprias mulheres raptadas, que intervieram no combate para conclamar a seus pais, de um lado, e a seus maridos, de outro, que não se matassem mutuamente, fazendo delas órfãs ou viúvas. Desde então, diz a lenda, os dois povos se uniram e formaram uma nação única. Seria esse o começo de um processo que, no futuro, especialmente nos anos em que a República vigorou (509 – 27 a.C.), levaria Roma a chamar o Mar Mediterrâneo de mare nostrum, devido à gigantesca dimensão de suas conquistas territoriais.
 
A intervenção das Mulheres Sabinas, de Jacques-Louis David, 1799, óleo sobre tela, 385 x 522 cm. Musée du Louvre, Paris.
Salvo engano, o primeiro artista da Idade Moderna a se interessar por esse assunto ligado à história latina foi o escultor italiano Giambologna (Giovanni de Bologna), ao criar, em 1582, uma verdadeira obra-prima em mármore intitulada O Rapto de uma Sabina. Surpreendente em todos os ângulos pelos quais se pode observá-la, e esculpida a partir de um só bloco de pedra, a escultura de Giambologna costuma ser incluída por críticos e historiadores como pertencente a um estilo de época chamado de maneirismo, normalmente associado ao final do período renascentista e muito influenciado pelas últimas obras de Michelangelo. Anos depois, Nicolas Poussin, pintor francês que viveu na primeira metade do século XVII, produziu duas grandes versões em óleo sobre tela para o tema, a primeira finalizada em 1635 e a segunda em 1638. Artista de formação e feitio classicistas, Poussin se tornaria, posteriormente, um dos modelos supremos da Real Academia de Pintura e Escultura, a famosa instituição fundada em 1648 por Luis XIV – responsável, entre outras coisas, por alçar a pintura de cunho mítico-histórico ao grau máximo de importância na hierarquia dos gêneros. 
 
 
Quem também se interessou pela legendária desdita das mulheres sabinas foi o pintor flamengo Peter Paul Rubens, apresentando sua versão, produzida entre 1635 e 1640, quase na mesma época às de Poussin. Mas as coincidências param por aí, na medida em que, enquanto a obra do último está identificada com o classicismo, a de Rubens se atrela a outra corrente estética, o barroco, ainda que com ressalvas. Todavia, vale pontuar, exemplos como esses são importantes para se perceber a aleatoriedade de certos movimentos estilísticos, que não tiveram o caráter rigorosamente universal e cronológico como, talvez, os manuais de história da arte façam crer. 
 
O Rapto das Sabinas, de Pablo Picasso, 1962, Centre Georges Pompidou, Paris. 
Atuando num período em que o academismo já estava plenamente consolidado na França, Jacques-Louis David foi outro pintor que conferiu dimensões grandiosas ao tema, embora tenha preferido representar não o momento do rapto, como seus antecessores, mas a interferência das mulheres no desfecho da guerra. Seu estilo, diga-se de passagem, é autenticamente neoclássico. Admirador contumaz da história romana, em especial do período republicano, David fez dessa admiração motivo não só para a criação de muitas de suas pinturas mas, também, de sua atividade política, lembrando que ele foi um destacado deputado jacobino na época da Revolução Francesa e um aliado fiel de Napoleão Bonaparte após sua fulminante ascensão ao poder. Não à toa, A Intervenção das Mulheres Sabinas é de 1799, exatamente o ano em que, após tornar-se primeiro-cônsul, foi possível a Bonaparte pacificar a França, pelo menos internamente. Qualquer semelhança alegórica não é mera coincidência. Por fim, resta proferir algumas palavras sobre a contribuição de Pablo Picasso a essa temática, que legou uma série de telas dedicadas a ela. Pintadas entre 1962 e 1963, tais obras são, na realidade, releituras mais ou menos próximas dos quadros de Poussin e David, que vieram à luz por ocasião da crise dos mísseis em Cuba, quando o mundo se viu diante de uma provável hecatombe nuclear. Dotadas daquele estilo inconfundível de Picasso, com suas figuras geometrizadas, a série é mais um exemplo de como a mitologia e a história romanas podem servir aos mais diversos propósitos simbólicos. E olha que existem outras versões dessa mesma lenda, realizadas por outros artistas, que não puderam ser contempladas nesta postagem mas que, provavelmente, mantêm alguma relação figurada com o período histórico em que surgiram. Um prato cheio para romanófilos e amantes das artes em geral. 
 
O Rapto das Sabinas, de Pablo Picasso, 1963, Museum of Fines Arts, Boston.
 
por Rodrigo Morais
 
Coluna: Arte
 
 

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