A caveira anamórfica de Holblein n’Os Embaixadores do jovem Hans

por Homero Nunes

Hans Holblein, o jovem. Os Embaixadores, 1533.

 

Os embaixadores estão vestidos em fato de classe, melhor, estamento, o que demonstra a posição de importância e poder naquela sociedade. O mais imponente, em vestes elegantes e espalhafatosas, era embaixador da França em Londres; o outro, mais sóbrio, era o bispo que representava o pontificado. Diplomatas em pose de retrato separados pelos objetos dos novos tempos: o globo, coisas da astronomia, instrumento musical etc. No cantinho esquerdo, ao alto, bem escondidinho, está Jesus Cristinho, pregadinho em um crucifixo prateado. As pesadas cortinas em verde fazem as vezes do fundo. A cena é representada de forma naturalista, cheia de detalhes e minuciosamente descritiva, seguindo a linha do maneirismo alemão e da arte do jovem Hans Holblein. Tudo conforme a etiqueta, não fosse a mancha deformada no centro da tela. Trata-se de uma caveira que se pode ver quando o olhar está oblíquo, vendo a tela de lado, abstraindo toda a cena no crânio que salta à percepção. Uma caveira em representação anamórfica, técnica na qual a imagem ganha contornos apenas se vista de determinado ângulo (tente virar a tela do computador, quem sabe?). Símbolo da morte e da finitude de tudo, a caveira enche de mistério a tela, seja em sua forma natural, seja na distorção que incomoda a visão. Pouco se sabe das intenções do artista, talvez fosse apenas pela posição que o quadro seria exposto numa sala, deixando a caveira à mostra para quem adentrasse o recinto; talvez faltasse movimento ou um chamariz para a tela; talvez fosse um assombro da morte, sobre os homens, sobre o poder que eles representavam, sobre o mundo que ruía em novos mundos, novas crenças, novas ideias. 
 
 
Hans Holblein, o jovem
Os Embaixadores
1533
207 cm × 209.5 cm
Óleo sobre tela
National Gallery, Londres
 

 


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