Albert Camus e o suicídio

por Isso Compensa

por Matheus Arcaro

 

Eu amo a vida,

eis a minha verdadeira fraqueza.

Amo-a tanto que não tenho nenhuma

imaginação para o que não for vida.

(Albert Camus)

Albert Camus no terraço do seu estúdio em Paris, 1957. Foto: Loomis Dean/ Time&Life Magazine

 

Vários pensadores trataram da questão do suicídio, dentre eles menciono Durkheim, Schopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche. Contudo, gostaria de destacar Albert Camus, mais especificamente duas obras de sua lavra: “O mito de Sísifo” (1942) e “O homem revoltado” (1951). Na primeira, surge o conceito central de Camus, o absurdo:

“Um mundo que se pode explicar, mesmo com más razões, é um mundo familiar, mas, pelo contrário, num universo subitamente privado de ilusões, o homem sente-se um estrangeiro […] Esse divórcio entre o homem e a sua vida é o sentimento de absurdo”

 

 

A vida humana é absurda porque estamos todos condenados à morte não sendo nem culpados nem inocentes. Nada tem sentido a priori. A existência é gratuita. E, se a vida não tem sentido, quais os motivos para continuarmos vivos? Logo no primeiro parágrafo, o filósofo-romancista expõe o propósito da obra:

“Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo.”

 

 

Aliás, o próprio título faz-se revelador. Segundo o mito grego, Sísifo está condenado a repetir sempre a mesma tarefa: leva a pedra ao alto da montanha e ela rola. E novamente Sísifo sobe a pedra e ela rola. Eis a vida: um absurdo. É bem verdade que, à sua maneira, o suicida resolve o problema da absurdidade. Todavia, para Camus, tal solução não é válida. A saída para o homem absurdo jamais é o suicídio (que é resignação, aceitação), mas a revolta.

 

 

“O único verdadeiro papel do homem, nascido em um mundo absurdo, é viver, ter consciência de sua vida, de sua revolta, de sua liberdade.”

Eis que entramos na segunda obra. De acordo com Camus, “a revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível”. É preciso dizer não, é preciso lutar contra o absurdo. E, só é possível dizer não, se antes existe dentro do homem um valor de afirmação. Dizer não é impor limite. “Aparentemente negativa, já que nada cria, a revolta é profundamente positiva, porque revela aquilo que no homem deve ser defendido”. Dizer não, em última instância, é dizer sim à vida.

 

 

A revolta não é um ato individual ou egoísta. Na verdade, ao revoltar-se o homem reconhece dentro de si que todos os homens estão nesta condição:

“Na nossa provação diária, a revolta desempenha o mesmo papel que o cogito na ordem do pensamento: ela é a primeira evidência. Mas essa evidência tira o indivíduo de sua solidão. Ela é um território comum que fundamenta o primeiro valor dos homens. Eu me revolto, logo existimos”

 

 

A revolta é um direito. A revolta é resistência, enfrentamento. É apenas a partir dela que o homem assegura sua liberdade:

“Uma das poucas posturas filosóficas coerentes é a revolta, o confronto perpétuo do homem com a sua escuridão. Ela é a exigência de uma transparência impossível e questiona o mundo a cada segundo. Essa revolta é apenas a certeza de um destino esmagador, sem a resignação que deveria acompanhá-la.”

 

Albert Camus no terraço do seu estúdio em Paris, 1957. Foto: Loomis Dean/ Time&Life Magazine

 

As fotos que ilustram esta postagem são de Sebastião Salgado, da série sobre Serra Pelada, de 1986. Publicadas no livro “Trabalhadores: uma arqueologia da era industrial”.

Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela UNICAMP. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e em Comunicação Social. É professor, artista plástico e escritor, autor do romance “O lado imóvel do tempo” (Patuá, 2016) e do livro de contos “Violeta velha e outras flores” (Patuá, 2014). Está lançando Amortalha, livro de contos, também pela Patuá.

 

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